segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
ser outono
Quero ser outono. Tempos houve em que fui verão; em que me obrigava a sorrir quando a solidão se afastava ou quando um simples suspiro e torcer de nariz eram os substitutos de palavras preenchidas de dor. Repito e acrescento: tempos houve em que fui verão; mas a exaustão tomou conta de mim e substitui-me em inverno. Não consigo afirmar com certeza se correspondi a essa mudança de estação de forma consciente. Mas consigo dizer que me sinto demasiado inverno; que há dias em que me aconchego nos lençóis e me sinto inútil quando o fracasso me invade as veias e as percorre sem piedade; que há dias em que as lágrimas correm o meu rosto sem pedir licença e aviso prévio. Não quero mais ser inverno. Não quero mais regressar à estação das cores quentes. Sinto-me exausta dos extremos. Quiçá pudesse ser primavera, mas com convicção afirmo que eventualmente a afastaria de mim - demasiada alergia para um único corpo. Quero ser outono. Quero ser céu azul ainda que uma das minhas folhas toque o chão no segundo seguinte. Quero ser intervalo entre o verão e o inverno. Quero conforto e poucas expectativas sobre mim e sobre os outros. Quero isso em quantidades absurdas: menos expectativas. Quero ser outono.
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